Wednesday, December 03, 2008

Bicicletas no Paredão

Aproveito esta oportunidade para partilhar uma troca de correspondência com a Câmara Municipal de Cascais (CMC), em meados deste ano, sobre uma situação que ainda me desconforta - e talvez não só a mim.

"Sou morador em Cascais há mais de 27 anos e não posso deixar de me sentir constrangido quando um polícia se dirige a mim para me repreender pelo facto de estar a circular numa infra-estrutura pública construída para servir (pensava eu) os interesses de todos os munícipes, sem excepção.

Numa altura em que a generalidade dos municípios da Europa dita "civilizada" (Paris, Barcelona, Roma e Berlim, por exemplo) investem somas consideráveis na aquisição de milhares de bicicletas para uso público, a minha autarquia proíbe a circulação das mesmas nos novos paredões junto ao mar.

Esta situação encerra diversos factores desagradáveis e é em si mesma uma proibição anacrónica. Por um lado exclui uma parte dos cidadãos que, como eu, gostam de passear de bicicleta (e não vale a pena dizer que existem alternativas, porque passear no passeio junto à marginal, onde os carros passam a 80 km/h a menos de um metro do ciclista e é difícil lembrar que nos encontramos junto ao mar, visto que o ruído e o fumo nos inibem qualquer sensibilidade, não é certamente uma alternativa quando é tranquilidade e lazer que se procura). Por outro lado porque é totalmente indiferente aos novos paradigmas urbanísticos que privilegiam, cada vez mais, toda e qualquer forma de deslocação que seja "amiga do ambiente", potencialmente saudável e que promova o usufruto do espaço público de uma forma harmoniosa e sociável. O que me deixa baralhado quanto às opções do executivo camarário.

É certo que poder-se-á argumentar que a câmara não é indiferente a esta questão e construiu infra-estruturas para este fim na ligação Guincho-Cascais. Mas eu não vivo na Quinta da Marinha ou em Birre. Vivo em Sassoeiros. E não me parece razoável que tenha que me deslocar até ao centro de Cascais, de carro e/ou comboio, para poder usufruir de uma passeio de bicicleta junto ao mar.

Outro argumento é o de que um ciclista (o termo "ciclista" repete-se ao longo deste texto, mas é preciso não o confundir com um indivíduo que circula com uma bicicleta de ciclismo, e equipamento da Volta a Portugal, a fazer médias de 50km/h na marginal - estes serão profissionais, que representam um grupo residual no qual não me incluo) distraído poderá colidir com uma criança ou um idoso e provocar algum tipo de lesão. Ora, este mesmo ciclista distraído poderá desequilibrar-se ao circular no passeio da marginal, cair para o meio da via e ser atingido por um automóvel, provocando lesões, certamente, não menos graves. Sem esquecer que os passeios da marginal são projectados para peões e que também estes se servem dele. Levando mais uma vez a uma questão contraditória: não se compreende como a proibição de circulação para as bicicletas faz sentido no paredão, com 3 a 6 metros de largura, mas não faz o mesmo sentido num passeio da marginal, com 1,5 metros de largura.
Não falo sequer da possibilidade do ciclista de passeio ser obrigado a circular na via da marginal, visto que só alguém com clara má fé, ou indiferente à integridade física e psicológica destas pessoas, poderá ponderar essa possibilidade.

É preciso ser razoável e confiar no civismo e prudência destes cidadãos que optam pela bicicleta como equipamento de lazer/desporto preferencial, assim como é importante manter uma vigilância que permita chamar à atenção e penalizar potenciais desrespeitadores do bem estar e segurança dos demais. Mas não é política proibir e penalizar esta opção e penso que a câmara só terá a perder em marginalizar o uso da bicicleta por todas as razões que acabo de descrever.

Obrigado pela Vossa atenção.

Despeço-me com cordialidade,

Ricardo Dias Garcia"




Resposta da CMC:



"Exmº Sr. Ricardo Dias Garcia
Permito-me resumir de seguida a posição da Câmara Municipal de Cascais no que respeita ao Paredão (passeio pedonal S. João - Cascais).
1. Embora este equipamento seja um passeio pedonal e, portanto, à partida exclua velocípedes, a Câmara estudou a possibilidade de conciliar a utilização das bicicletas, mas infelizmente chegou à conclusão que tal é inviável, em sintonia com a Associação do Amigos do Paredão. A hipótese de coabitação seria através da demarcação no piso de uma faixa destinada aos velocípedes, mas o facto de ocorrerem diversos estrangulamentos de largura entre Cascais e S. João, nomeadamente junto a algumas esplanadas de concessionários, bem como a cada vez maior frequência de eventos organizados no Paredão, torna desaconselhável tal solução.
2. Como teremos de admitir, não seria de esperar que a generalidade dos ciclistas viesse a desmontar nesses locais de estrangulamento ou de localização de eventos e atravessá-los com a bicicleta à mão. Basta assistirmos, sentados numa das esplanadas em causa, ao que fazem os habituais prevaricadores quando por elas passam em desrespeito da Lei e das mais elementares regras de conduta cívica.
3. Na verdade, o Paredão conhece felizmente uma grande afluência de peões em muito períodos do dia e da semana, em todas as estações do ano, e já se verificaram diversos acidentes de certa gravidade fruto de atropelamentos por bicicletas. É patente e notório que, apesar do comportamento responsável da maioria dos ciclistas, alguns abusaram da velocidade e até se permitem exercitar acrobacias, colocando em risco a integridade dos peões. Mesmo a baixa velocidade, o desequilíbrio e a queda provocada em idosos pode ter consequências gravíssimas. A responsabilidade civil subsequente pelos danos é da Câmara Municipal e a responsabilidade política é do seu Presidente.
Compreendo muito bem a frustração de muitos ciclistas que, como eu próprio, poderiam desfrutar de bicicleta aquele magnífico passeio e até utilizá-la regularmente como meio habitual de transporte, com vantagens para o trânsito.
5. Pelas razões expostas, a nossa decisão não poderia deixar de ser a interdição de bicicletas no Paredão. Sem dúvida que os ciclistas têm direitos, mas não podem atropelar os direitos dos peões. O que importa é tentar conciliar os interesses em presença. De qualquer modo, não se trata obviamente de uma decisão irreversível, pois a experiência pode favorecer que venha a ser ponderada uma solução alternativa, em articulação com a Associação dos Amigos do Paredão e as Forças de Segurança.
6. O que é importante registar é a apetência muito saudável de um número crescente de cidadãos pela utilização da bicicleta quer em termos lúdico-desportivos, quer como meio habitual de transporte. Assim, embora a orografia e o desenho urbanístico sejam muitas vezes obstáculos difíceis de vencer, será nossa preocupação procurar alargar progressivamente as pistas dedicadas para o efeito, à semelhança da que existe entre a Guia e o Guincho. Desde já está em projecto a ligação por ciclovia desde a praia de Carcavelos até à Estação de Caminho de Ferro, atravessando a Quinta dos Ingleses (através do futuro parque urbano), com prolongamento para a Quinta do Barão. Por outro lado está já projectada a ligação Praia do Guincho a Birre, em prolongamento da actual ciclovia. Esperamos também repetir com crescente frequência a disponibilização do Autódromo durante um dia para utilização exclusiva da pista por ciclistas.

Com os melhores cumprimentos,

António d’Orey Capucho
Presidente da Câmara Municipal de Cascais"




Nova investida minha:

"Exmº Sr. Presidente da Câmara Municipal de Cascais, Dr António Capucho,

Agradeço a atenção em redigir esta atenciosa e estruturada resposta, mas aproveito para lembrar-lhe que não vivo em Birre e que o prolongamente da ciclovia do Guincho até Birre pouco me beneficia, a não ser que considere a hipótese de recorrer a um outro meio de transporte para aceder a esta via.

Lembro-lhe também que, tal como a uma pessoa que compra um bilhete para um espetáculo de ópera pouco lhe importa que o filho do contínuo seja um às no acordeão e esteja a ensaiar na cave da sala de espetáculos, qualquer pessoa que escolha viver na linha fá-lo com o intuito de estar próxima do mar e não se satisfará, certamente, com um passeio sub urbano pela quinta do barão.

Será importante também frisar que, por muito bem elaboradas que estejam as premissas por trás da proibição de circulação das bicicletas na ciclovia, continua a não existir alternativa viável para a circulação de bicicletas na marginal, junto ao mar. O que não afastará, por certo, um número crescente de cidadãos de circular de bicicleta o mais próximo da costa que lhes seja permitido. Ora, invariavelmente, um maior número de bicicletas a circular, significa uma maior probabilidade de ocorrência de acidentes. Se é certo que um acidente na via pública rodoviária servirá apenas para engrossar os números da sinistralidade automóvel, ambos sabemos que esta é uma situação que traduz um combate desigual entre viaturas e velocipedes e que poderia muito bem ter sido evitada.

Mas compreendo que uma total, e indiscutível, incompatibilidade entre a circulação de pessoas e bicicletas nos novos paredões justifica o sorteio diário de vidas na marginal. Afinal de contas Cascais é terra com tradição de jogo, como o demonstra o Casino do Estoril. Resta lembrar que no casino o mais certo é perder.

Enfim..

Despeço-me com cordialidade,

Ricardo Dias Garcia"

Como todos os assuntos, existirão várias posições com argumentos válidos, sobre a autorização, ou não, da circulação de bicicletas no paredão. Eu não quis deixar de expor os meus.

7 comments:

Anonymous said...

De facto é uma pena que o paredão esteja vedado a quem gosta de andar de bicicleta. Eu sou frequentador assíduo do paredão, quer como ciclista, quer como peão, e não me parece que o facto de haver bicicletas a passear por ali coloque vidas em perigo.
Por outro lado e por ridiculo que pareça, na ciclivia que vai do Farol Design Hotel até à Casa da Guia, e que tem um passeio pedonal ao lado, os peões optam por circular na ciclovia sem que isso tenha sido até agora motivo de proibição! Critérios!
Luis Garcez
Cascais

Anonymous said...

Exmo Sr.Presidente da C.M.C.

Tal como já foi dito anteriormente não percebo o porque da proibição das bicicletas no paredão.
O Sr. já viu algum acidente com bicletas no paredão, foi alguem parar ao Hospital?
É que na marginal é muito frequente inclusivé com mortes.
Quanto á ciclovia do Guincho são os peões que mais a utilizam sem se preocuparem com a circulação de bicicletas.
Estamos num mais que com muitas manias, o Sr. certamente não gosta de andar de bicicleta.

JR

Anonymous said...

O paredão é um dos últimos redutos de sossego e bem estar para os peões, longe de máquinas e maquinetas. Meter aí mais uns "aceleras", é abrir caminho para comportamentos acrobáticos e slalons que em nada beneficiam quem quer e tem direito a passear e usufruir do local, que sempre foi destinado a peões. Se não sabem ser peões, fiquem em casa, aí não atropelam ninguém.

Anonymous said...

Gostaria de deixar aqui o meu comentário unicamente, com o intuito de lembrar a quem de direito que, é de facto possível fazer passar uma ciclovia no paredão, só era necessário que as entidades reguladoras tomassem em atenção, que muitas das esplanadas em questão estão a ocupar mais espaço do que deveriam, bem como seria perfeitamente viável, relocalizar ou roubar 2,5 metros para fazer um equipamento de interesse público.

Como outras pessoas gostaria de perguntar onde estão os policias quando eu estou descansadamente a passear na ciclovia cascais-guincho, e tenho de parar porque a mãezinha está a ocupar a via com um carrinho de bébé, ou o velhote está a passear a é com oscultadores nos ouvidos e não ouve. Já para não falar dos carros estacionados junto ao farol design hotel, que ainda é mais escandaloso.

Como último ponto gostaria de lembrar que é possivel também construir uma ciclovia no passeio junto á marginal, porque como já alguém afirmou este está subdimensionado para a prática do cicloturismo.

Anonymous said...

a CMC vai ver que errou mais uma vez como o fez em mais de um caso...como o ordenamento de transito. a AECC fez varias tentativas para mudar o transito e uma empresa cobra uns milhares de euros diz o mesmo que a AECC e ai sim decidem alterar o mesmo
Bonito sr presidente
ja agora nem a pe o sr passeia por cascais quanto mais de bicicleta

Anonymous said...

Já agora podem informar-me o nome da empresa a quem foi confiado o estudo de reordenamento do transito? E o nome do URBANISTA responsável pelo projecto? E quanto custou?

Elidio Monteiro

Tiago Costa said...

Como praticante frequente de bicicleta à mais de 15 anos, e como praticante habitual de atletismo,sou absolutamente contra a utilização de bicicletas no paredão de Cascais. Julgo falar com total conhecimento da matéria em causa, e acho de uma total imprudência julgar-se aceitável a livre circulação de bicicletas no paredão, mesmo de noite no inverno, o perigo que constituiria aparecer-me de repente numa curva uma bicicleta a 30km/hora seria e teria concerteza consequências graves, agora imaginem no pico do Verão. Como disse desde à 15 anos que ando de bicicleta com bastante reguralidade e dificilmente encontro alguém que goste mais de bicicletas do que eu, julgo no entanto existerem locais mais apropriados e saudáveis para a prática da modalidade(ciclovia/Serra de Sintra por exemplo). Eu proprio já tive que me desviar de bicicletas junto à passagem estreita da piscina do tamariz (onde não existem esplanadas) e imaginem o ciclista nem se deu ao trabalho de parar,eu que me desvia-se. Por fim acrescentar que considerar os ciclistas ditos "profissionais" são mais passiveis de distracções é absolutamente errado, sem o ser tenho a certeza que são desportistas muito mais atentos e conscientes dos perigos e acidentes que podem originar.
Melhores Cumprimentos,