Monday, July 06, 2009

Para reflectir...

“Esta noite sonhei com o Mário Lino”
(de Miguel Sousa Tavares - Expresso - Segunda-feira, 29 de Jun de 2009 )

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa.
Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis.
Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor. Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!

http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?sid=ex.sections/23491

7 comments:

Pedro Partidário said...

nã! Ó Paulo! Você (e o Miguel Sousa Tavares) enganou-se. Isso não pode ser em Portugal... ou então, já são assuntos resolvidos... ou então, ninguém quer realmente saber. Ou então está tudo certo e as ditas obras são mesmo úteis (Reparou que tal como indicia o texto do MST: as "inuteis" auto-estradas, afinal, são muito úteis ao fim-de-semana)... Tenho estado cuidadosamente a ver os telejornais, e, salvo alguns arrufos de uns "chatos" não há notícias nem trocas de ideias sobre esbulhamentos dos povos. Não. Só tenho visto notícias longas e aprofundadas sobre "corninhos", sobre o Ronaldo e um espectáculo qualquer com ele no Estádio do Real Madrid, e sobre o defunto que nunca mais é enterrado, para que o enterro possa ser uma mega-festa... Entretenimentos! Espectáculo!... é com isso que andamos entretidos e gostamos de andar entretidos. É disso que o MUNDO TODO gosta. E de férias! E se alguém se lembrar da importância de construir uma magnífica auto-estrada, isso é óptimo porque até dá para ir "á terra" ao fim de semana. Até mesmo um aeroporto é mais útil para ir mais vezes a Cuba, ao México ou ao Brasil ... a gente quer lá fazer as contas à pertinência do negócio!
...não seja chato Paulo, venha daí! vamos até àquela esplanada que tem televisão, e também tem tremoços e bejecas e vamos incluir-nos na cultura planetária: 'bora lá assistir à apresentação do jogador mais bem pago do planeta (parece que isso sim, é importante) e ao enterro do - na morte, planetariamente consensual - Michael Jackson... temos festa para mais dois ou três dias. Acho que você não é daqueles que se surpreenderá quando descobrir que quase TODOS estão lá.
E lá, nessa esplanada, até podemos fazer uns gestos mais machos do que os "corninhos". E "arrotar postas de pescada" contra tudo e contra todos e (juro-lhe) ninguém se vai virar contra nós com aquelas carinhas de virgens ofendidas. E não seremos expulsos. É redentor! E é apaziguadora essa sensação de pertencer à cultura planetária. Sentir-nos-emos parte da humanidade... sempre nos sentiremos "iguais". ;)

Teresa said...

Óptimo texto "à la Eça" que retrata exactamente o nosso País e melhor ainda os "nossos" governantes

Anonymous said...

O texto do MST é muito curioso na maneira irónica como aborda o nosso errado modelo de desenvolvimento. Enferma no entanto de uma questão que é transversal a todo o nosso subdesenvolvimento: a incapacidade de entre nós nos entender-mos e o complexo de inferioridade em relação ao que vem de fora. Não por acaso a "muleta" para o diálogo é... uma amiga estrangeira...que provavelmente dorme até ao Algarve e a quem, na volta, se compra mais um TGV.
Esperam ver uma carpideira igual entre um inglês e p.e. um suiço? ou entre um espanhol e um português?.

O texto do P. Partidário mete bejecas, tremoços, ronaldos estrelas pop e cultura planetária. É conversa de café, tudo bem. Mas é triste, conformista e deprimente. Se como arquitecto e professor não vai mais além...

M. Vaz Monteiro.

Anonymous said...

LOBO VILLA , 7-7-09
O que Miguel S T quis dizer,em linguagem Queiroziana,foi que dantes o povo era analfabeto e bruto, e, agora, que já não é anafabeto mas continua bruto...ou pior,está mais bronco (!) ao ponto de se deixar desgovernar por anedóticos Srs. Pino y Lino...
Esta é a mensagem.

Pedro Partidário said...

Bejecas, tremoços e eteceteras é ironia, caro Vaz Monteiro. A crítica do MST pela "mão" do Paulo é certeira e é, como convida o Paulo, um bom texto para reflectir.

MnelVP said...

Infelizmente deixei de ter qualquer estima e respeito pelo MST depois do seu ridículo e retrógrado artigo sobre os direitos dos animais e a favor da utilização dos animais de circo.
Não que não tenha algo de razão neste seu artigo, mas de novo utiliza uma linguagem de rezingão "velho do restelo", de "viva a tradição, queremos as coisas como eram" etc. O MST esqueceu-se que as coisas mudam, se modernizam. A questão do TGV não pode ser confundida com a das autoestradas.

Respondo-lhe com uma conversa de aeroporto:
Vim antes-de-ontem no avião de Quito a Madrid e um casal de emigrantes falava sobre onde iriam viajar para conhecer a Europa; dizia ela "Lisboa? Ouvi dizer que era bonita", "não, melhor Sevilha ou Barcelona porque têm TGV/AVE" respondeu ele.

Pedro Partidário said...

Caro MnelVP,

Partilho do seu ponto de vista sobre o MST... em absoluto. No entanto, quanto a este assunto em particular (e questões de economia e finanças à parte), considerando a dimensão geográfica do nosso território, suponho que venhamos a sofrer a vários níveis com uma "overdose" de auto-estradas... e, quanto a TGV's - que é assunto que como diz, não envolve as mesmas questões das auto-estradas - entre Lisboa e Porto, o Alfa, com umas mudanças pontuais (e outras estruturais, concordo) na Linha do Norte - para além de mudanças numa mentalidade provinciana que também "travará" a velocidade do TGV - é um comboio que já existe, confortável (muito) e que poderia atingir prestações muitíssimo boas em redução de tempo de percurso... se fosse essa a questão verdadeiramente em causa.

Cumprimentos.