Friday, January 18, 2008

Chalet Barros: quando o dia chegar, não estraguem, por favor



Pode uma casa ter valor votivo? No plano da fé ou noutro, como testemunho de gratidão por algo que se conseguiu? Nas suas Memórias da Linha de Cascais (1943), Branca de Gonta Colaço e Maria Archer falam de uma casa que nasceu assim, do cumprimento de um voto. Foi sensivelmente “pelo ano de 1886”. Um “rico capitalista lisboeta, de seu nome João Martins de Barros, foi habitar, em São João do Estoril, uma casa em frente da Poça”. “Adoecera-lhe uma filha e esperava vê-la curada pelo ar do pinhal e do mar”, o que veio a acontecer, dispondo-se o pai a “fazer uma casa no local onde se operara a maravilha”.

Não a podendo construir junto à praia da Poça, João Martins de Barros escolheria “para ela um poiso deslumbrante”, um pouco mais à frente na linha de costa: o “antigo forte de Santo António do Estoril, muralhas quasi ruídas, mas ainda alcandoradas sobre os rochedos que afloram, à esquerda de quem olha o mar, no areal do Estoril”. Adquirido o imóvel ao Estado, aí nasceria um palacete, sob o risco do italiano César Ianze, um dos primeiros da arquitectura de veraneio de Cascais. E um dos mais belos também.

Mais de cem anos depois, o Chalet Barros está felizmente de pé e livre de acrescentos e “inovações”. Mas será demasiado ingénuo pensar-se que ele ficará imune para sempre a tentativas de o "modernizar". Mais cedo ou mais tarde, também ele ficará na mira de um qualquer projecto que - a experiência o demonstra - muito possivelmente deitará tudo a perder. Para destruir uma casa, não é preciso demoli-la: basta que, ao invés de se dizer não, se viabilizem “soluções de compromisso” entre o antigo e o novo, regra geral com resultados desastrosos. Não é preciso ir muito longe, aliás, para os ver: mesmo ao lado está o resultado de uma dessas “soluções de compromisso”, pairando sobre as Cocheiras Santos Jorge.

O que se espera das autarquias como entidades responsáveis pelo licenciamento de obras é que não se limitem a processar administrativamente os pedidos que lhes chegam: uma casa é sempre mais que quatro paredes. No caso de Cascais, foram casas como o Chalet Barros, com a história que existe dentro delas, que deram prestígio ao concelho e fizeram dele o que, de alguma maneira, e apesar de tudo, é ainda hoje. Por isso, e quando o dia chegar - i. e., quando alguém se lembrar de intervir na casa que foi de João Martins de Barros -, não estraguem, por favor. Ela é perfeita como é.


Créditos imagem: No início do século XX, em fotografia de Paulo Guedes (1886-1947)/Arquivo Fotográfico de Lisboa; imagem dos primeiros anos em postal, s/data

5 comments:

Paulo Ferrero said...

Belíssimo, post, MAM, como sempre. Bjs.

Maria Amorim Morais said...

Obrigada Paulo. Bj grande

Villager said...

Interessante coincidência…estava a pesquisar a história deste palácio para o meu blog e encontrei este post no Cidadania Cascais…que me dirigiu ao livro que tinha a apanhar pó na estante desde há muito tempo. Por isso…obrigado.

http://aguarelasportuguesas.blogspot.com/

Maria Amorim Morais said...

É verdade, coincidência engraçada. É uma pequena-grande jóia esse livro. Boa (re)leitura então.

Anonymous said...

Boa tarde,
Tranquilizem-se : as obras de remodelação e modernização foram apenas feitas no sentido de tornar a casa mais confortável e segura mantendo sempre a sua traça especial e única. Os atuais donos preocupam-se em não estragar.