Saturday, July 28, 2007

Partir a loiça



Rezam as crónicas que a Rainha D. Maria Pia tinha por hábito deixar cair um copo com grande estrépito quando algo lhe desagradava profundamente. Podia ser numa ocasião informal, como uma festa no Paço, ou em privado. Poderia não dizer uma palavra, mas o statement estava feito. Puro capricho? Gesto infantil? Talvez, mas não necessariamente. D. Maria Pia, que após a morte de D. Luís manteve laços com Cascais, certamente que não se ficaria quando abrisse de par em par as janelas do seu chalet (nas imagens) e, olhando para o horizonte à sua direita, visse aquilo que sabemos que aí vem.

Ao invés de um copo, partiria muito provavelmente toda a sua loiça, porque o que aí vem - essa “obra de ruptura” de ainda mais duvidosa inserção no lugar que substituirá o velho Estoril-Sol - é, a par de mais um atentado ao delicado sistema de vistas de Cascais, mais um atentado a uma outra coisa: a arquitectura de veraneio de finais de Oitocentos, princípios de Novecentos que, apesar de todas as perdas e adulterações que tem sofrido, poderia ainda ser a sua marca distintiva. Na envolvente próxima da “obra de ruptura” que aí vem estão “só” duas das mais importantes peças desse legado: o Palacete Palmela e a casa de D. Maria Pia, que por uma daquelas ironias do destino se chamou originalmente Chalet da Vista Longa. Mais "obras de ruptura"? Às vezes, quando a paciência começa a esgotar-se, partir a loiça é mesmo o último recurso...


Créditos da primeira imagem: Inventário do Património Arquitectónico da extinta Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN)

4 comments:

RAA said...

Tem toda a razão. Aliás, se foi para isto que demoliram o Estoril-Sol (decisão que, ingenuamente, me pareceu acertada), mais valera tê-lo lá deixado. Já agora: mesmo ao lado está a casa do velho tycoon Alfredo da Silva, projecto de Tertuliano Soares. Cumprimentos.

Pedro Partidário said...

...e que não venha a ser necessário (por demasiadas vezes) ter de "partir a loiça" para que se procurem condições para preservar consistentemente, essas edificações que são os chalets, que, com as que lhes sucederam sob diversas formas, são uma das marcas qualificadas e significativas do tipo de ocupação que foi caracterizando este território.

Maria Amorim Morais said...

Caros RAA e Pedro Partidário,

Obrigada pelos vossos comentários. De facto, é um mistério recorrente em Portugal que ninguém com poder decisório - desde quem encomenda, passando por quem desenha até quem viabiliza - se aperceba do impacto de projectos desta natureza em zonas que, apesar de tudo, ainda têm alguma coisa do "espírito do lugar". O "filme", de facto, é sempre o mesmo...

Anonymous said...

(...) a origem desta problemática (aqui levantada e muito bem, com um certo sentido literário, senão jornalístico ;) é, e como já alertado há uns 'posts' atrás (a nova unidade temporal) a aparente ausência de um plano que enquadre efectivamente estes valores patrimoniais com as novas intervenções (que não podem continuar a ser casuísticas e isoladas) que vão surgindo... Quantas mais vezes será necessário dizer que não é pelo somatório (ainda que de boas fontes) de projectos de arquitectura que se faz urbanismo... uma pergunta: o Sr. Agache (ou os promotores que o convidaram) deixou algum edifício da sua autoria... eu creio que não, mas deixou a 'estrutura', a 'ideia' para o lugar, capaz de 'concertar', de enquadrar o que se viria a construir depois... até hoje? esta mesma crítica é, foi confirmada no polo local da Trienal... onde estão as intervenções de conjunto, qual a visão/visões de cidade (ou lugar) em discussão? esta 'ponte', só pode ser 'atravessada' c/ uma outra abordagem disciplinar, onde a arquitectura é (sem descurar do seu papel) apenas uma das questões em análise (uf, fiquei exausto, vou redimir-me de tal deriva e voltar rapidamente ao estirador ;)

AB