Friday, May 25, 2007

Dois veleiros, dois destinos


A 13 de Outubro próximo cumprir-se-ão cem anos sobre o torpedeamento, ao largo de Cascais, do navio Pedro Nunes, derradeiro nome do que fôra um príncipe dos mares com lugar cativo na história da navegação: Thermopylae, o mais veloz veleiro do mundo, que teria no Cutty Sark o seu gémeo e rival.

Num momento em que este último se vê tocado pela tragédia – o incêndio que esta semana o atingiu, destruindo-o quase por completo -, os cem anos do afundamento do Thermopylae redobram de significado e, também, de importância. Os seus destroços, dispersos a 30 metros de profundidade, são agora tudo o que resta do que de mais majestoso houve na luminosa era dos clippers.

Em Inglaterra, escassas horas após o sinistro, era dada a garantia de que o restauro do Cutty Sark, então já em curso, irá prosseguir custe o que custar, agora pela via da reposição do que se perdeu. Por cá, espera-se que o Estado saiba honrar o destino do Thermopylae, tal como nesse distante 13 de Outubro de 1907 o fez quando, num festival da Liga Naval, e na presença de D. Carlos, o velho veleiro - que então agonizava no Tejo como pontão-depósito de carvão, gorada a hipótese, por falta de verbas, de o manter como navio-escola com as cores nacionais -, foi afundado sob o fogo: o destino mais honroso e solene para um navio que chegou ao fim dos seus dias.

A sua ligação ao País e a Cascais, em particular, é, de resto, profunda por uma outra razão de peso: entre os seus comandantes esteve Manuel de Azevedo Gomes (1847-1907), um dos mais ilustres oficiais da Armada Portuguesa: genro da Condessa d’Edla, segunda mulher de D. Fernando II, Manuel de Azevedo Gomes viveu na Parede, na Casa das Pedras - ainda hoje felizmente de pé, junto à Marginal -, que ajudou a construir sob projecto do arquitecto veneziano Nicola Bigaglia.

A detecção dos destroços do Thermopylae foi conseguida em 2003, por uma equipa de mergulhadores liderada pelo capitão-de-fragata Augusto Salgado, permanecendo desde então vivo o sonho da sua musealização in situ.


Créditos imagem: Lewis & Clark College, Thermopylae leaving Foochow, Montague Dawson (1895-1973)






3 comments:

Paulo Ferrero said...

Grande estreia MAM! Bj

Pedro Partidário said...

Obrigado!... fiquei "tocado" de interesse!...
Mas nestes assuntos, vem-me sempre aquele "amargo" de vivermos uma época onde o orçamento do Estado para a cultura e a ciência é miserável... é melhor, para afugentar a frustação, nem pôr em comparação a rápida tomada de inciativa, reveladora, primeiro de VONTADE, e depois de capacidade, revelada no caso do Cutty Sark e no "nosso" pobre Pedro Nunes que, mesmo pela "vontade" bem pode esperar... afundado! Aliás, a verdade é que a "vontade" e a "capacidade" foram: AFUNDÁ-LO.
A recolha de algum material virá pela mão de uma Instituição privada?... pois se vier, que venha então(!) e que venha "por bem". Será bem-vinda.

Maria Amorim Morais said...

Obrigada a ambos. Talvez um dia a sorte do "nosso" Thermopylae possa ser outra. Embora a situação seja muito diferente, a vontade de "ir à luta" que os Ingleses demonstraram no caso do Cutty Sark mostra que é possível.