Friday, October 12, 2007

Grupo Ecológico de Cascais lamenta que condomínio acabe com "último pulmão verde" do Monte Estoril

In Público (12/10/2007)
Luís Filipe Sebastião

«Um empreendimento imobiliário licenciado para uma área densamente arborizada no Monte Estoril está a preocupar o Grupo Ecológico de Cascais (GEC), que teme o desaparecimento "do último pulmão verde" da zona. A autarquia contrapõe que o projecto está muito abaixo dos índices urbanísticos admitidos para aquele espaço e que serão preservadas as árvores de maior porte.
A Vila Montrose ocupa cerca de meio hectare na confluência das ruas Mondariz, Alegre e dos Estrangeiros, no Monte Estoril. A propriedade possui uma casa apalaçada, projectada em 1896, e duas edificações anexas, rodeadas de um jardim com vegetação densa e muitas árvores centenárias. "É uma pena a beleza daquele parque ser destruída, pois é o último pulmão verde do Monte Estoril", lamenta Teresa Sampaio, da direcção do GEC, considerando que o projecto "vai dar uma machadada final" numa das últimas zonas verdes de um bairro que, aos poucos, tem visto ser alterado o ambiente romântico dos velhos palacetes, uns transformados em modernos condomínios, outros em ruína à espera de melhores oportunidades imobiliárias. "O charme do local vai desaparecer com o que ali vão fazer", diz Teresa Sampaio.
"Este espaço do Monte Estoril correspondia à antiga estância balnear comparável à Riviera francesa antes do desenvolvimento do Estoril", comentava um morador da zona, a propósito de outra obra nas proximidades, na Rua Trouville, onde nos últimos dias tem sido demolida uma moradia ao estilo "castelinho".
O alarme entre moradores aumentou com a instalação de tapumes e de uma placa de licenciamento na propriedade Montrose. A Câmara de Cascais licenciou, por despacho do vice-presidente, datado de Janeiro deste ano, uma área total de construção de 7395 m2, para habitação e serviços em edifícios de quatro pisos acima do solo e duas caves. O empreendimento terá 24 apartamentos de luxo, com a recuperação do palacete e a construção de mais três blocos e uma piscina exterior, que ocuparão quase todo o jardim, apresentado pelo promotor como percorrendo toda a área do condomínio e contribuindo para uma "reclusão visual" e uma "prezada privacidade".
"O projecto contempla a recuperação da casa principal e mais alguma construção, mais a salvaguarda do património arbóreo mais importante que lá está", afirma Carlos Carreiras, vice-presidente e responsável pelo Urbanismo, que argumenta: "Se consideramos que tudo o que está não pode ser mexido, então as cidades morrem". O autarca defende que "se faça requalificação dentro dos perímetros urbanos e não se deixe morrer as casas", salientando que os índices urbanísticos aprovados para a zona são apenas de 0,72, quando o PDM permitiria até 2,53. Quanto à "casa Trouville", a câmara considerou que a sua arquitectura "era muito má" e o novo projecto prevê a construção de seis apartamentos.»

É um erro crasso fomentar-se a proliferação de condomínios. Qualquer dia estamos como na América Latina, é isso que deseja, Sr. Carlos Carreiras?

Já estamos fartos de estar a mando das imobiliárias e dos projectos assinados por arquitectos de «prestígio», mas as operações de branqueamento de objectivos.

Cascais não aprende, mesmo.

E está provado o que temia: chegam os dois últimos anos de mandato e a coisa transforma-se. É um «filme» demasiado visto. Quanto é que isso acaba?

4 comments:

Jorge Morais said...

Pois é, mais uma zona verde que desaparece, com os objectivos do costume, podemos alertar para o que poderá acontecer à Quinta dos Ingleses (antigo Cabo Submarino) e à Quinta do Barão, ambas em Carcavelos ainda não totalmente delapidados, mas com ameaças pendentes. Podemos lembrar outras situações já "tratadas", como a zona envolvente do seminário da Torre da Aguilha o novo e o velho. Sobre este último e a delapidação dos azulejos em conjunto com a sua paisagem natural que aí existiu, pode mostrar o que se poderá passar com a Quinta do Barão.

Pedro Partidário said...

"Quanto à 'casa Trouville', a câmara considerou que a sua arquitectura 'era muito má' e o novo projecto prevê a construção de seis apartamentos.» Evidentemente!!!!!!!!!!!... até porque quanto à "velha" casa Trouville, na Grande Cascais-capital do empreendedorismo, ninguém (entre os muitos cérebros inovadores e empreendedores que temos atraído) sabe que destino lhe pode ser dado... a não ser construir mais da tão necessária "habitação" porque, com o crescimento demográfico a que se assiste em Portugal, vê-se (todos menos eu!... talvez!!!) uma grande carência desta funcionalidade.
Já antes, quanto - também - ao Hotel Atlântico, o Sr. Presidente da Câmara, considera que o edifício tem "construção de má qualidade"(!!!!!!!).
...Porque é que não surpreende o "zelo" e a "sustentação técnica-cultural" destas apreciações com que Presidente e Vice-Presidente, tão doutamente nos brindam, para sustentar as boas razões (de outrém) para a "modernização" e "desencafuamento" desta terra tão "erradamente" construída ao longo dos tempos anteriores à sua providencial chegada ao Poder?
Chave da resposta: Cascais é a Capital do empreendedorismo e da moda e, assim, o que é preciso é, tal como a moda ensina, empreendimentos e empreender em mudar tudo! E desfilar festivamente na passerelle... e voltar a mudar tudo para a próxima estação, de acordo com os "gostos" que a retórica hábil e interessada fabrica...para a nova estação.
Lamentável.

Paulo Ferrero said...

O pior é quando me começam a falar em reabilitação ... restauro, recuperação, novas valências, isso sim. Mas reabilitação cheira logo a esturro, a corrupção, a especulação imobiliária, a pato bravo, a lucro fácil, a falta de gosto, a más práticas, a terceiro mundismo, que deseja ver impossível de ver em Cascais, mas a que já me habituei ... a aceitar habituar-me. Temos que fazer alguma coisa! Cascais não pode virar Belas II.

Vasco said...

No seu artigo "Sobre a Arquitectura do Monte-Estoril, 1880-1920", a arquitecta Raquel Henriques da Silva descrevia a Vila Montrose da seguinte maneira:"Embora empobrecido, este chalet é o que MELHOR transmite uma vivência ambiental, enterrado num quase ninho de vegetação densa, enquadrado em ruas que são ruelas, para elas aberto através dos ângulos irregulares das velhas pedras que desenham muros comunicantes."
De facto, o jardim de estilo "romântico" da Montrose é um dos maiores e mais bonitos jardins de todo o concelho de Cascais, e um dos últimos que demonstra como era o Monte-Estoril do século XIX. É uma pena que a Câmara não tenha exercido o seu direito de preferência aquando da venda do imóvel em 2003 para criar um jardim público para todos usufruirem.

Acho cómico também que ao lado dos Paços do Concelho, está neste momento patente uma exposição denominada "Monte-Estoril - Propostas de Salvaguarda".Ou seja, à superfície, a Câmara mostra-se muito preocupada com a preservação do património historico-cultural do Monte-Estoril, mas depois é pouco coerente na aprovação de projectos urbanísticos. Concordo com o sr. Vice-presidente da CMC que não se deve deixar "casas morrerem", e alguma construção/reabilitação é sempre necessária. Mas ele porventura não terá percebido que quem anda a "matar" as casas históricas do concelho de Cascais é a própria Câmara. Ao autorizar 4 blocos de 4 pisos à volta da casa antiga, o pobre Chalet Montrose vai acabar por sufocar!

Vasco d'Andrade